OBSCURIDADE

04-11-2021

Posso dizer que passei 27 anos da minha vida a acreditar que havia uma luta entre o bem e o mal. Depois disso, o caminho que se fazia lento para a expansão da consciência, compreendi que, por vezes, o bom é mau e o mau é bom, levando-me a perceber que a obscuridade é um conceito que ainda alimentamos de forma errada desde a era Medieval. 

Do latim obscuritāte (escuridão) simboliza a ausência de luz e, se trouxermos um pouco de luz à nossa consciência, podemos entender que tudo isto pode ser uma metáfora para o processo consciente ou inconsciente que vivemos. Como? Sempre que eu alimento medos, obstáculos, dificuldades ou mentiras que me impedem de ser o TODO (Luz), torno-me num vazio, isolado dessa totalidade, anulando a minha luz interior

E na realidade, ao longo do meu trabalho pessoal, tenho compreendido que a maioria das pessoas não teme a escuridão, mas sim a luz. "Como posso ser parte do TODO se sinto culpa, não merecimento ou outras coisas piores?" e assim começa um jogo inconsciente que nos faz alimentar esta obscuridade, dificultando a própria vida, desacreditando esse potencial Divino com o qual todos nascemos.

Mas se somos um fragmento Divino, que irradia luz, qual o objetivo da obscuridade? Criar a polaridade que permite a existência na matéria.

Imagina que tudo era luz, uma luz muito intensa e brilhante. O que aconteceria? Ficaríamos cegos. E se pelo contrário, se tudo fosse escuridão sem qualquer presença de luz? Seria o mesmo cenário, teríamos a sensação de cegueira. Mas o que acontece quando a Luz e a Sombra se juntam? Criam contrastes, permitem a manifestação das formas que nos dão a ilusão de uma realidade, criando esta dimensão onde nos podemos dedicar à vivência de inúmeras realidades.

Como poderia a Luz estar em guerra com a Obscuridade se na realidade elas são unas? Essa guerra é apenas o duelo interno que muitos de nós escolhem ainda viver porque acreditam na separação do TODO, e alimentando o conflito de ser, afastam-se cada vez mais da fonte da totalidade.

Não importa querer ser o "bom" da história quando temos de ser o vilão, porque até o vilão comete boas ações. Não importa querer ser algo se não o somos.

E com tudo isto passei a acreditar que não existem más pessoas, mas pessoas mal resolvidas.

Mas de facto foi preciso estar junto de um "demónio" para compreender na pele todos estes conceitos que andavam já a circular no mundo das ideias.

Em Dezembro de 2020, durante um encontro no Egipto, o nosso guia incorporou uma entidade obscura. Conseguia ver aquele ser diante de mim. Parecia-se um pouco como o Monstro da Bela, mas o seu pelo de touro molhado, com um cheiro de enxofre e uma marreca, davam a entender que não se tratava de um monstrinho da Disney mas de um mostro a sério. A sua voz fazia-me estremecer. Ele falava sobretudo em responsabilidade e ia enumerando os nossos medos. E à medida que este ser ia rodando sobre o grupo ele ficou numa posição mais frontal e consegui ver o seu olhar. Ao olhar dentro dos olhos daquele ser eu vi o mel e a profundidade das galáxias, eu reconheci a origem daquele ser e compreendi que não podia ter medo de algo que era parte da criação. E naquele momento tudo o que eu queria fazer era abraçar o monstro e partilhar com ele o meu amor, em reconhecimento que somos todos um, sendo necessário tantas vezes o caos para trazer aprendizagens de forma a gerar uma nova realidade, forma de ver ou até de viver.

E assim compreendi que realmente somos nós os criadores da nossa realidade, e que através da obscuridade e da luz eu posso ser neutra, usando o melhor das duas forças para seguir caminhando pela vida.

Feliz Diwali André.