Libertação

Uma vez li que “todas as coisas boas têm de chegar a um fim, porque coisas melhor estão para chegar”.

A nossa condição humana, primitiva, quer por força acreditar que depois de alcançar algo bom, podemos viver nessa eternidade, sendo que, um dos propósitos de estarmos vivos, neste planeta, é experimentar, criando possibilidades infinitas de viver e de SER.

E podemos entender este processo usando um exemplo do que acontece quando temos algo muito bom, vamos usar morangos como metáfora que, são tão bons, mas tão bons, que não os comemos, e que vamos guardar na esperança de os preservar para todo o sempre. E com isso, nem nos nutrimos, nem os usamos como uma semente para dar continuidade a essa maravilha, beleza ou nutrição.

Assim, encerramos a nossa mente num círculo, que nos leva à separação da eternidade, da infinitude daquilo que somos, e também daquilo que o universo é. Estamos a ser convidados a regressar à consciência do todo, e para isso, o primeiro passo é libertar os apegos.

Nesta fase de morte e transformação para um renascimento, é importante entender que crenças carregamos em nós e que não nos permitem integrar a totalidade daquilo que somos. Observa de que forma te limitas, e reduzes a tua potência, e a beleza de quem és. Depois, percebe os gatilhos que usas para te amarrar a estruturas, pessoas ou trabalhos, para alimentar uma falsa segurança, e de que modo colocas o teu poder pessoal nessas ligações, perdendo muitas vezes a tua energia vital, e o teu eixo interno.

Criar esta consciência por vezes é um desafio, abrir mão daquilo que conhecemos e abraçar um vazio que nos pode trazer mais morangos ou outra coisa diferente, requer uma fé e uma confiança muito grande. Através da paz de espírito e de um coração equilibrado, podemos faze-lo sem medos e sem esforço. Mas o caminho para isso é sem dúvida a consciência.

Nestes últimos dias, onde percorri alguns cabos e fortes de Portugal para despertar os guardiões, fui convidada a morrer e a fazer este caminho.

Pediram-me para libertar as alianças no mar, de forma a dissolver todos os acordos que fui fazendo ao longo de vidas, e que me prendiam a uma realidade especifica, não me permitindo avançar. Entre vários guardiões, houve um muito especial, que me mostrou um pedido que me foi feito no Egipto, mas do qual eu esqueci, porque uma parte de mim queria viver o romance e o amor que despertou em mim. A distorção e talvez a distração de tantas memórias boas, fez-me perder o meu eixo, e esqueci-me que aquela pessoa representava na realidade a memória de que eu podia amar (dar) e podia ser amada (receber), mas que para isso, tinha de libertar as memorias de dor e de culpa. Em especial a culpa do abandono, e não ser digna de voltar às origens. Por isso mesmo, há uma necessidade de voltar ao estado zero. Voltar a renascer numa nova consciência para criar uma nova realidade.

Este processo foi feito através de muitos gritos de dor, onde, no Cabo de São Vicente me permiti morrer. Vergada no chão entendi que não queria abrir mão, que estava cheia de obsessões e que não me estava a permitir voar em leveza. Mas as andorinhas, por cima da minha cabeça faziam-me lembrar a música da Ana Moura que diz: Um dia disse uma andorinha: Filha, o mundo gira, usa a brisa a teu favor, A vida diz mentiras, Mas o sol avisa antes de se pôr, (…) Solta as asas, volta as costas, Sê forte, avança p'ra o mar, Sobe encostas, faz apostas, Na sorte e não no azar

Sinceramente, acho lindo como todos nós buscamos um reconhecimento de alma sem nos olhar dentro, e como é tão fácil de nos perdermos quando descobrimos um fragmento de amor à nossa frente, cujo papel divino é ser um espelho da nossa condição. Uma relação (seja ela romântica, profissional ou familiar) vai sempre espelhar uma parte nossa, trazendo consciência dos nossos processos internos. Quando usamos essa consciência como uma forma de maestria e não como um melodrama de novela mexicana para satisfazer a necessidade do ego ou até da satisfação sexual que nos assiste, permitimos crescer e evoluir, permitindo abrir as nossas asas e ir, para onde o vento nos levar. Entregando-nos assim ao processo de morte e renascimento. E, ao sermos conscientes, este processo faz-se pelo prazer de viver, e não pela dor/medo de morrer.


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